Nexo - Capítulo 02: A Turbulência – Santa Maria.
Por Alex Nery
Município de Santa Maria dos Aflitos – 300 km da Capital
O fim de tarde estava magnífico. Nos céus, quase nenhuma nuvem. Um azul profundo começava a dar lugar à noite, que provavelmente seria estrelada. Na praia abaixo, ondas fortes vêm e vão, enquanto os jovens reúnem madeira para a fogueira. Antônio coordenava os demais e arrumava os tocos na pilha. Sara o observava com paixão. Fazia duas semanas que começaram a namorar e esta era a primeira vez que dormiriam juntos fora de suas casas. A idéia do acampamento tinha sido de Lucival, o “líder” do grupo de jovens. Era sempre ele quem tinha as melhores idéias para retirá-los do marasmo e do tédio que era comum em Santa Maria. Afinal, a cidade era muito pequena, não possuía shoppings, nem cinemas, então existiam pouquíssimas alternativas de diversão para qualquer um. A principal alternativa eram os igarapés próximos ou a Praia do Remador, situada a 20 km de Santa Maria. Dois dias atrás, Lucival chegara na escola com a idéia do acampamento. Não teve dificuldades em convencer o grupo, e assim, todos estavam lá agora: Lucival, Antônio e Sara, os irmãos Théo e Teresa, Guilherme, Laura e Silvia. Os rapazes traziam a lenha conseguida na mata próxima, enquanto Sara ligava o rádio da pick-up e as demais conversavam animadamente, Tudo era perfeito naquele fim de tarde, e já havia uma espécie de “combinação” sobre quem ficaria com quem. Quatro barracas estavam armadas formando um quadrado em torno do ponto onde a fogueira seria acesa.
- Hoje a noite vai ser linda, Sara – diz Antônio sorrindo.
- Vai sim, amor – responde Sara.
- Menos papo e mais trabalho, ô... – brinca Lucival trazendo uma pilha de lenha.
- Acho que já temos o bastante pra hoje... – diz Théo, largando alguns tocos no monte.
- É... Também acho – concorda Lucival – Diz pro pessoal que já chega.
Guilherme chega e se une ao grupo.
- Ufa! Chega né? – pergunta caindo de joelhos no chão.
- Molenga... – diz Théo.
Uma música romântica começa a ser ouvida, sinal de que Sara encontrara os cds na pick-up.
- Agora, sim... – sorri Lucival, olhando Teresa.
Teresa, sentada na areia junto à Silvia, sorri de volta. A noite chega rápido, e Lucival acende a fogueira. Os jovens sentam-se em torno dela e bebem e conversam animadamente. Antônio e Sara se abraçam e se esquentam um no corpo do outro. - Quanto falta para as férias? – pergunta Lucival. - Um mês ainda, seu pateta – responde Théo. - Caracas, um mês? Tudo isso? – reclama Lucival virando uma lata de cerveja. - Eu que não tenho pressa... Sem as aulas é mais tempo sem ter nada o que fazer – diz Silvia. - Também acho – concorda Théo. - Acho que podemos aproveitar beeem melhor o tempo... – diz Teresa maliciosamente, em direção a Lucival. - Também acho, gata... Também acho... – Lucival se levanta e senta ao lado de Teresa, lhe passando a lata de cerveja. - E você, Laura? Ouvi falar que vai se mudar pra capital... – pergunta Guilherme, timidamente. - É... Vou, sim. Meu pai foi transferido pra lá. – responde Laura desanimada. Antônio e Sara se levantam e caminham até um tronco grande caído na praia. Ambos se sentam na areia com as costas no tronco e se abraçam. Seguem-se beijos apaixonados, entre um gole de vinho e outro. Ambos estão ansiosos com a expectativa desta noite. Depois de alguns minutos, o casal pode ver que Lucival e Teresa também se beijam, enquanto Théo enche o copo de Silvia de vinho e Guilherme, tímido como sempre, tentar conversar com Laura. - Vou pegar mais vinho, amor... – diz Antônio levantando-se. - Oba! – diz Sara. Antônio apanha o copo de Sara e levanta-se. A fogueira desenha seu contorno, enquanto ele caminha. Sara olha em volta, sentindo o vento frio. A mata próxima é fechada e escura e parece que nem a claridade das chamas consegue penetrá-la. Olhando além da fogueira e dos amigos, ela o vê. Ele está em pé, próximo à linha da mata, mais ou menos à trinta metros da fogueira. As chamas iluminam seu rosto magro e moreno, destacando seus olhos graúdos no corpo franzino de quinze anos. Ele veste uma camisa branca e surrada e uma bermuda cáqui. Parece descalço. - Jonas?!... – murmura Sara surpresa. Neste mesmo instante, Antônio também percebe a presença de Jonas. - O que você quer aqui? Ninguém te convidou! – grita Antônio, atraindo a atenção dos demais. - Olhem só... É o Jonas... O que você quer aqui, esquisitão? – grita Lucival se levantando. - Sai daqui, pivete... veio espionar a gente é? – grita Teresa. - Vamos botar esse “olheiro” pra correr... – diz Théo. - Tô nessa!– concorda Guilherme. Os rapazes começam a investir contra o intruso. Eles andam devagar, como se não quisessem espantar um animal selvagem. Ao contrário do esperado, Jonas permanece parado. - Metido a corajoso, é? – instiga Lucival. No inicio é um riso tímido, algo difícil até mesmo de se ouvir. Aos poucos torna-se uma gargalhada insana. O riso de Jonas ecoa pela praia. Sentindo um arrepio coletivo, os quatro rapazes param a menos de cinco passos do garoto. As garotas se levantam e reúnem-se próximas da fogueira, sentindo todo o frio da noite, como se a própria fogueira não estivesse acesa. - Vamos pegar ele... – grita Lucival, irritado pela risada debochada de Jonas. Os quatro investem ao mesmo tempo, mas de repente seus pés não os obedecem mais. Estão fixos na areia. - O que é isso? - E-eu... Não consigo... Andar... - Mas, que diacho... - Argh... Como num balé de marionetes mal-ensaiadas, os quatro voltam-se ao mesmo tempo para a esquerda, ficando de frente para a praia. Com movimentos desconexos, o grupo começa a caminhar arrastando os pés. - Isso é algum tipo de brincadeira? – grita Teresa. - Deixe de besteiras, Antônio... – diz Sara. - Pessoal, isso está me assustando... – murmura Laura. Os rapazes gritam e protestam, mas a marcha permanece inexorável. Alguns esmurram as próprias pernas como se quisessem tirá-las do torpor, mas é inútil. Os quatro continuam andando em direção ao mar. As garotas, assustadas, correm até eles e tentam puxá-los para trás, mas eles não se detêm. Sara e Laura agarram os braços de Antônio e ele grita por socorro, mas continua caminhando. Théo grita e chama pela mãe, enquanto seus pés tocam a água. Lucival berra e xinga, puxando as pernas com os próprios braços, mas nem isso o detém. Guilherme, mudo de medo, só contempla com pavor o que os espera. Em segundos, os quatro estão com a água pela cintura. Todos choram e berram. As garotas correm em volta deles num gesto de desespero. A risada de Jonas ecoa sobre todos. - Oh, meu Deus... - Pare com isso... PAREEEEE.... - JONAAAAAAASSSSS... O olhar de Jonas reflete as chamas da fogueira, enquanto seu sorriso preenche seu rosto. Os rapazes continuam sua caminhada e entram cada vez mais na água. Lucival é o primeiro a afundar, debatendo seus braços e tronco de maneira incontrolável. Guilherme é o segundo, e mergulha rezando. Théo afunda gritando em desespero. Teresa tenta puxar o irmão, mas não tem forças. As quatro garotas se agarram a Antônio, na esperança de que suas forças sejam suficientes para salvar pelo menos um amigo. Antônio cerra os dentes e tenta se agarrar às meninas também, mas seu esforço apenas retarda seus passos. Súbito, elas o soltam. Algo invisível as obriga a soltá-lo e todas gritam horrorizadas vendo os quatro rapazes agonizarem na água. Em minutos está acabado. Os quatro estão mortos. As meninas, novamente livres, correm para a praia. Atrás da fogueira podem perceber Jonas, que cessara aquela risada maligna. - O-o... Quê você... Fez? – pergunta Sara. - Você fez isso!! Você é um monstro!! – grita Silvia. - Saia daqui... Nos deixe em paz... – chora Laura. - Você matou meu irmããããoooo... – grita Teresa investindo de punhos cerrados contra Jonas. Antes que possa tocá-lo, Teresa tremula como uma imagem na água. Um ponto negro surge em sua barriga e dele, sai um redemoinho que atinge todo o seu corpo. Atônita, Teresa é sugada pelo redemoinho, desaparecendo na frente de todos. As garotas gritam horrorizadas. Jonas estende a mão e aponta para Laura e Silvia. Ambas se entreolham, quando o ponto negro surge em suas barrigas, sugando-as em menos de um segundo. Sara cai de joelhos no solo, completamente transtornada. Em sua mente, pensamentos caóticos se amontoam. Jonas aproxima-se e ajoelha-se em frente da garota. Sara levanta os olhos lentamente e pergunta: - P-por quê?? - Por que eu não gostava deles – sussurra Jonas. - V-vai... Me... Matar também? – soluça Sara. - Não. Eu gosto de você. – responde Jonas sorrindo. E Sara grita na praia. Clínica Nexo – uma semana depois. Fernando e Bruno caminham pelo corredor da clínica. Ambos trajam jalecos brancos e Bruno tem em mãos a pasta do paciente que será visitado nesta manhã. Desde seu ingresso na equipe, Fernando dedicara os últimos dias à consulta de vários livros e leituras especializadas sobre assuntos diversos como efeitos paranormais e todo tipo de acontecimento estranho. A experiência com Ruth Ximenes[1] na semana passada tinha deixado uma impressão muito forte em Fernando. Depois do tempo dedicado à pesquisa, Fernando pedira a Bruno para conhecer os demais pacientes. - A ficha desta paciente não tem seu nome completo... – diz Fernando. - Ah, isso... “Ana” é o único nome que lhe demos – diz Bruno. - Como assim “lhe demos”? - É o seguinte, Doutor... Ana foi encontrada numa reserva indígena. Ela era chamada de Yami, ou seja, “Noite” na linguagem deles. - O que a torna “especial” para estar aqui? – pergunta Fernando desconfiado. - Vai ver – diz Bruno sorrindo. Ambos chegam à porta do quarto 203. Bruno bate duas vezes levemente na porta. Uma voz suave responde com um “Entre” e então o médico usa seu cartão magnético e abre a porta. - Ela fica trancada? – pergunta Fernando mais desconfiado ainda. - Medida de segurança – responde Bruno. - Ela é perigosa? - Hahah... segurança para ela, doutor. O quarto está com a janela fechada, apesar do belo dia que se faz lá fora. Até mesmo as pesadas cortinas estão cerradas. Mobiliando o quarto, uma mesinha de centro redonda, com um vaso vazio em cima, duas confortáveis cadeiras estofadas, uma cômoda de três gavetas sem espelho, e no centro, uma cama de solteiro. Na cama, sentada com as pernas dobradas, uma mulher de pele branca e limpa, aparentando cerca de vinte e poucos anos, cabelos negros, lisos e sedosos, olhos negros e amendoados, com um sorriso simpático observa os dois homens. Fernando não pode deixar de notar que ela é absurdamente linda. Será que ele já não a viu no cinema? Em algum filme norte-americano, talvez. Ela parece uma atriz de cinema, com certeza. - Como vai, Ana? – pergunta Bruno. - Muito bem, Bruno. – responde ela abrindo um sorriso magnífico – Quem é o seu amigo? - Este é o Dr. Alvez. Ficará na equipe agora. – responde Bruno. - Muito prazer, Ana... – Fernando estende a mão para cumprimentar a mulher e é imediatamente correspondido. - Olá, doutor. Posso chamá-lo de Fernando? – pergunta Ana. - Claro que sim. – responde Fernando sorrindo de volta. - O Dr.Alvez está conhecendo todos por enquanto. Em breve, vocês terão oportunidade de conversar melhor. – diz Bruno – Vamos deixá-la descansar, ok? Temos sessão hoje às 16:00 horas. - Ah, sim... tudo bem. Voltem sempre, haha... – diz Ana. - Tchau, Ana. – diz Fernando. - Tchau. – responde Ana. Os dois doutores saem do quarto e Fernando diz: - Não entendi. Não vi nada de “especial”, diga-se, estranho, nela... - Não mesmo? Hehehe... - Ora... com certeza, não. - Nem sentiu nada? - Sentir o quê? - O que achou dela? Seja sincero. - Simpática, bonita, agradável... - Exato. A coisa é que todos, absolutamente todos, que a conhecem acham a mesma coisa. E invariavelmente sentem-se atraídos por ela. E quando digo atraídos é atraídos de maneira às vezes obsessiva. - Ora, mas ela é simpática realmente. - Sim, verdade. Mas detectamos em algumas sessões que Ana emite uma espécie de feromônio que atrai as pessoas. - Empatia? - Sim, sim. Isso. Alguns de nossos atendentes foram demitidos por se tornarem obcecados por ela. Trocamos o atendente do seu quarto pelo menos uma vez por mês, pois ninguém consegue se relacionar com ela por mais tempo sem ser acometido pela obsessão em tê-la para si. - Bem, empatia não é algo tão estranho assim. Existem várias pessoas que possuem esse dom... Não neste nível, mas possuem. - Certo, mas não notou nada mais de estranho? - Diga logo o que eu deixei passar agora. - O quarto fechado. Ela é supersensível à luz solar. Quando veio pra cá, ela foi exposta ao sol e teve queimaduras graves. - Não parece. - Pois é. Ela se recuperou em tempo recorde dos ferimentos e não ficou nenhuma marca ou cicatriz. Os medicamentos fizeram um efeito pelo menos 500% mais rápido do que eu jamais vi. - Realmente, ela é cheia de surpresas. - E outra coisa... Quem disse à ela que seu primeiro nome é Fernando? - Ora... não foi você? Ou eu mesmo? - Negativo, hehehe... - Ela deve ter lido no meu crachá, então. - Olhe direito, Fernando. Seu crachá tem apenas o seu sobrenome. Fernando levanta o crachá e constata que Bruno tem razão. No crachá existe apenas o sobrenome “Alvez”. - Ok. Você venceu. Vou ficar de olho aberto. Clínica Nexo – na tarde do mesmo dia. - Fernando? Posso falar com você? A frase, dita pelo diretor da clínica, Dr. Salomão, é apenas retórica, pois Fernando sabe que deve atendê-lo a qualquer minuto. - Claro, Dr. Salomão. Entre, por favor. – responde Fernando. Salomão entra e senta-se numa das poltronas da sala de Fernando. Uma sala de tamanho médio, com bastante espaço para os livros e arquivos de Fernando. Na mesa do psiquiatra, um notebook ligado à rede da clínica além de várias revistas e livros da área. - Serei breve. Precisamos de você em campo. – diz Salomão. - Em campo? Acha que estou pronto? - Sim, acho. E, além disso, nesta área não há como treinar antes. - Bem, isso me agradaria muito. Qual é o caso? - Não sabemos se é um caso, mas aconteceu uma coisa estranha em Santa Maria dos Aflitos. - Sei onde é. Já passei por lá algumas vezes vindo para a capital. - Quatro rapazes se suicidaram... Algumas pessoas estão desaparecidas... - Não seria o caso de chamar a polícia? - A polícia está no caso. Você vai trabalhar com eles. Acontece que os suicídios e os desaparecimentos ocorreram em situações estranhas. Acho que devemos dar uma olhada mais de perto. - Certo, então. - Parta hoje ainda. No máximo no fim da tarde. - Como quiser. - Quando chegar em Santa Maria, procure pelo delegado Palmeira. Fernando toma nota do nome do delegado num pedaço de papel. - E visite uma garota no hospital municipal... O nome dela é Sara Magalhães. - O que ela tem a ver com isso? - É o que você vai me dizer. Continua... [1] Em Nexo 01. - Agradecimentos mais que especiais ao Daniel pela contribuição neste capítulo. Valeu, Dan!
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Nexo Capítulo 01: A Turbulência – Azul e vazio.
Por Alex Nery
Por Alex Nery
Um mês atrás. Fernando, de pé, olhava através da vidraça. A chuva que cai lá fora bate diretamente no vidro da janela, embaçando a visão. Abaixo, no jardim em frente, enfermeiras correm para se abrigarem dentro do prédio, carregando pastas e algumas sacolas. O telefone toca às suas costas e a secretaria loura sentada à mesa atende.
- Alô?... Pois não, doutor Salomão. – diz a secretaria, desligando em seguida. Fernando se volta para a mulher. - Ele vai atendê-lo agora, doutor Alvez. Por aqui, por favor... – diz a secretária levantando-se e conduzindo Fernando até a porta do gabinete do doutor Salomão.
- Obrigado – responde Fernando sorrindo, sem deixar de notar que ela é bem atraente.
A secretária abre a porta do gabinete e deixa Fernando entrar. Dentro da sala, ele pode notar que ela é bem mobiliada, com uma estante cheia de livros preenchendo uma de suas paredes inteiramente. Ao fundo, uma mesa de mogno bem larga e uma cadeira grande e confortável. Mais à frente, um sofá e duas poltronas pesadas e confortáveis. No centro da sala, um homem magro e calvo, aparentando cinqüenta anos, usando um terno cinza e óculos quadrado, sorri e estende a mão.
- Bem vindo, Dr. Alvez... Sou o Dr. Salomão – diz o homem.
- Bom dia, doutor. – responde Fernando, cumprimentando o homem.
- O senhor foi muito bem recomendado. Sente-se. – diz o Dr. Salomão. O Dr. Salomão indica o sofá para o visitante, enquanto senta numa das poltronas.
A menção à recomendação de Fernando o aborrece. Patrícia havia convencido o pai a recomendar Fernando para uma vaga, e um pedido do governador ainda era uma ordem. Percebendo o semblante irritado de Fernando, o Dr. Salomão sorri e diz apaziguador:
- Analisei seu currículo e creio que o senhor está muito bem qualificado para a função. Já ouviu falar de nosso trabalho aqui?
- Na verdade ouvi bem pouco. Sei que muito do que é feito aqui tem um caráter sigiloso. – responde Fernando.
- Sim. Sigiloso é um termo apropriado. Aqui na Clínica Nexo desenvolvemos estudos em vários campos da ciência. E quando digo “vários”, quero dizer em várias direções... Inclusive em algumas áreas não-ortodoxas.
- Não-ortodoxas? Em que sentido?
- Bem, doutor... Devido ao seu currículo, a vaga de psiquiatra é sua indubitavelmente. Não vejo porquê não começar imediatamente a conhecer as nossas instalações. Vamos caminhar um pouco? - Claro. Os dois homens saem do gabinete do diretor e descem as escadas largas, feitas de madeira num estilo antigo, que liga o primeiro andar ao térreo. Assim como visto pelo lado de fora, o prédio principal da clínica mais parecia uma casa de fazenda, muito amplo e todo em estilo colonial. As portas e janelas eram largas e altas, e feitas, assim como as escadas, todas em madeira de lei, recordando uma época áurea da exploração madeireira na região. O estilo agradava Fernando, que apesar de gostar de tecnologia, sentia-se bem à vontade em climas antigos. Os dois médicos passam por algumas enfermeiras ocupadas em seus afazeres. Diferentemente de clínicas comuns, nada além do uniforme branco lembraria que ali funcionava uma instituição de saúde. Os pacientes eram mantidos no prédio ao lado, este sim de linhas mais modernas, mas ainda distante do que se espera ver numa clínica. Fernando nota que o prédio tem poucas janelas, situadas apenas do terceiro andar, o último da construção. Os dois homens saem do prédio da administração atravessando a porta principal. Os dois seguranças de plantão olham para eles casualmente. Fernando olha de volta e dos dois desviam o olhar. Ao chegar lá fora, ele percebe que a chuva parara repentinamente. Típico do mês de dezembro. - Somos uma clínica muito diferente de qualquer outra – diz o Dr. Salomão continuando a caminhar – Atendemos apenas alguns casos de cada vez. Nunca passamos de dez internos ao mesmo tempo. - Isso me espanta, pois a estrutura aqui me parece pronta para receber um número bem maior de pacientes. – retruca Fernando. - É verdade. – concorda Salomão – E isto, em parte, é o motivo por precisarmos de mais funcionários como você. - Como assim? - Estamos precisando expandir nossa atuação. A cada dia precisamos desenvolver mais rapidamente as nossas pesquisas. Digamos, que a demanda está crescendo. - Demanda pelo quê? Poderia ser mais específico, Dr. Salomão? - Vamos até a ala dos internos. Rapidamente os dois homens chegam ao prédio dos internos. Salomão avança até a guarita de segurança na portaria do prédio e usa um cartão magnético para se identificar. Um “bip” se faz ouvir, seguido por uma voz vinda do sistema de vigilância: - Bom dia, doutor. - Bom dia, Eduardo. Abra, por favor, e acrescente um passe de segurança para meu acompanhante, o Dr. Fernando Alvez. – solicita o diretor da clínica. - Claro, senhor. Um minuto, por favor. – responde a voz do outro lado do sistema. Quase imediatamente a porta é aberta, permitindo a entrada dos dois doutores. Ao entrar, Fernando vê à esquerda uma cabine de vidro com película negra e tem a certeza de que o segurança que liberou a entrada está lá dentro, o observando. O Dr. Salomão se aproxima de um terminal eletrônico e apanha um cartão magnético depositado na bandeja. - Use isto, por favor. Vai permitir que me acompanhe. – pede Salomão, entregando o cartão à Fernando. - Um crachá? - Mais ou menos. Na verdade é um cartão magnético com sensor gps. Sem ele, você seria barrado antes de dar dois passos aqui dentro. Com ele, o sistema o reconhecerá como visitante autorizado. È temporário, até que o seu cartão de acesso definitivo fique pronto após preenchermos os formulários de admissão. - Alta tecnologia... Sua clínica está me deixando muito curioso, doutor. - Mera ferramenta para que possamos trabalhar tranqüilamente. Vamos. Neste saguão do prédio, estranhamente não existem corredores. Apenas na parede ao fundo se podem ver as portas dos dois elevadores e a entrada das escadas. Não há mobília ou decoração. Apenas paredes lisas e assépticas. Um contraste brutal com o prédio da administração. Os dois homens chegam ao elevador. Salomão aperta o botão de chamada. Em segundos, eles entram no elevador e o diretor aperta o botão do primeiro andar. Ao chegar ao primeiro andar, os dois entram num corredor de aspecto mais tradicional ao de uma clinica. Um corredor longo e vazio, ladeado por várias portas. Salomão e Fernando caminham até a porta de uma sala onde se lê “Sala de Análise 01”. Usando o cartão magnético, Salomão abre a porta e entra com seu convidado. A sala é pequena e mal iluminada. Na parede oposta a porta, um homem negro, de aproximadamente quarenta anos, trajando um jaleco branco, está sentado em frente à um console de equipamentos. Ele olha para o diretor e o cumprimenta com um leve aceno de cabeça. O diretor acena de volta sorrindo. - Chegamos na hora, Bruno? – pergunta Salomão aproximando-se. - Sim, senhor. Estávamos lhe aguardando, na verdade. – responde o negro olhando para Fernando com curiosidade. - Este é o Dr. Fernando Alvez, nosso novo psiquiatra. Ele está começando hoje. – apresenta o diretor. - Como vai, Bruno? – Fernando estende a mão e cumprimenta Bruno. - Ótimo, doutor – responde Bruno amistosamente retribuindo o cumprimento. – Sente-se. Vai começar. - Começar o quê? – pergunta Fernando. Bruno volta-se para o console e fala ao microfone situado na mesa: - Ok, Carina. Estamos prontos. O Dr. Salomão já está aqui. Dito isto, a parede em frente ao console de equipamentos se ilumina, revelando tratar-se de uma vitrine e não uma parede. Do outro lado da vitrine, uma mulher morena de cabelos curtos, de olhar vivo e com aproximadamente vinte e cinco anos, usando o mesmo tipo de jaleco que Bruno, cumprimenta os homens com um gesto leve de cabeça. À sua frente, uma menina aparentando aproximadamente doze anos está deitada numa cadeira própria de dentistas. Ela tem os cabelos negros e longos e veste uma espécie de avental. Vários aparelhos estão ligados a ela por fios e eletrodos. Ela parece desacordada. Fernando supõe que ela esteja dopada, pois atrás da morena ele pode perceber uma mesa com seringas e ampolas. - Bem, vamos iniciar a gravação. São dez horas e doze minutos. Sessão conduzida pela doutora Carina Santos, auxiliada pelo doutor Bruno Vieira. A paciente desta sessão é Ruth Ximenes, caso NX04... Fernando fica cada vez mais curioso, mas não deixa de pensar que aquilo tudo é um pouco circense demais para um procedimento clínico. - Carina, houve uma oscilação. – informa Bruno. - Certo. Registre. – diz Carina observando a menina. A menina começa a agitar-se, como se estivesse tendo um pesadelo. Ela não fala nada coerente, apenas murmura coisas ininteligíveis que Fernando não compreende. De repente, um brilho azulado cobre o corpo da menina. - Bruno?.. – murmura Carina. - Estamos vendo também. – confirma Bruno. Fernando está sem palavras. Salomão apenas observa. Sem aviso de nenhuma espécie, o brilho se eleva sobre a menina. Aos poucos sua consistência amorfa vai mudando. - O que é isso? – pergunta Fernando. - Espere e veja – e só o que diz o Dr. Salomão. A forma azulada assume o contorno de um ser humano, pairando acima da menina. Um ser humano deitado paralelamente à menina agora inerte. Mas definitivamente não é a forma da menina. A forma movimenta-se no ar e desce entre a vitrine e a cadeira onde está a menina. Carina permanece estática. Fernando agora pode perceber. É a forma de um homem adulto. E a forma começa a falar. Inicialmente, sons espaçados... logo após, uma enxurrada de sons sem sentido. À medida que fala, o estranho contorno vivo parece mais irritado. Num momento, ergue seus braços e corre até a vitrine, mas é detido por uma força invisível e não consegue dar mais nenhum passo, caindo de joelhos no chão. Num gesto que expressa desespero, a sombra azul levanta a cabeça e urra para os céus, desaparecendo em seguida. Fernando observa estupefato. Nenhuma palavra sai de sua boca. Sala dos médicos – vinte minutos depois. Bruno apanha um café na cafeteira automática enquanto o Dr. Salomão e Fernando permanecem sentados à mesa no centro da sala. Carina ficara com Ruth na sala de sessões. Fernando ainda se sente desorientado quanto ao que viu. O diretor, percebendo isso, começa a falar. - Dr. Alvez, lembra-se quando eu disse que estudávamos áreas não-ortodoxas da ciência? - Sim, claro... mas, se isto não foi um truque ou uma espécie de teste de admissão, eu não imagino o que seja. – diz Fernando. - Entenda primeiramente que tudo o que você viu foi REAL. Não houve truque de espécie alguma. - Mas, então... o que é aquilo? - Aquele é o caso NX04. Ruth Ximenes. Ruth é uma menina de origem humilde que morava no interior do Estado. Um dia, sem qualquer explicação, durante seus períodos de sono, o “homem azul” começou a aparecer e a gritar pela sua casa. Os familiares dela evidentemente viram nisso um sinal de possessão demoníaca... Um fantasma diziam... - O que não é o caso... Ou é? A esta altura não sei mais em que acreditar. - Do ponto de vista científico tradicional, fantasmas não existem Dr. Alvez. - É claro... - Mas, do nosso ponto de vista, esta hipótese ainda está em aberto. - Em aberto? Quer dizer que realmente acha que aquela menina está possuída? - Sim e não. Simplesmente ainda não temos como afirmar ou negar isso. Ela chegou até nós no mês passado e por enquanto estamos coletando os dados. - Meu Deus... - Mantenha a mente aberta. - Quer dizer que existem outros casos iguais? - Na verdade, Ruth é um caso único. - Ah, sim. - Mas existem outros tipos de coisas “estranhas” que exigem a nossa atenção. - Que tipo de coisas “estranhas”? Salomão respira fundo antes de continuar. - Quando eu falei que a demanda pelos nossos serviços estava crescendo, eu não estava falando figurativamente. Vários casos excepcionais estão chegando ao nosso conhecimento, num ritmo antes considerado absurdo. Precisamos de pessoas em campo para averiguar esses casos e validá-los ou não. - Serei bem sincero, Dr. Salomão. Até agora tudo me parece fantasioso demais. - Ótimo. Eu teria uma péssima impressão de você se pensasse diferente. Precisamos dessa perspectiva também. Alguém ligado à ciência tradicional, alguém que nos questione e ponha à prova nossas pesquisas e conclusões. Aceita o emprego ou não? É uma oportunidade única, acredite. Fernando reflete. Seria loucura tudo aquilo? Uma encenação para afastá-lo do emprego e permitir que algum outro fosse chamado? - Eu aceito. Mas aviso-o de que será difícil que eu acredite nesse tipo de coisa. - Ótimo. Bem-vindo ao grupo. Bruno lhe familiarizará com tudo por aqui. – diz Salomão sorrindo, visivelmente contente com a decisão de Fernando - Outros deveres me chamam. O diretor levanta-se e sai pela porta. - Acredite, doutor... eu também fiquei quase louco quando comecei aqui – diz Bruno sentando-se. - Me chame de Fernando, ok? - Claro. - Bruno... o que significa NX04? - Quatro é o número do caso. Na verdade, temos cinco pacientes aqui neste momento. - Todos... “estranhos”? - Fernando, os estranhos aqui somos nós, heheh... - Eu não entendi nada do que aquela coisa azul murmurou. - Pudera... é egípcio. Fernando engole em seco. No próximo capítulo: Venha conhecer os demais pacientes da Clínica Nexo... se tiver coragem.
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