quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Nexo - Capítulo 02: A Turbulência – Santa Maria.

Nexo - Capítulo 02: A Turbulência – Santa Maria.
Por Alex Nery

Município de Santa Maria dos Aflitos – 300 km da Capital

O fim de tarde estava magnífico. Nos céus, quase nenhuma nuvem. Um azul profundo começava a dar lugar à noite, que provavelmente seria estrelada. Na praia abaixo, ondas fortes vêm e vão, enquanto os jovens reúnem madeira para a fogueira. Antônio coordenava os demais e arrumava os tocos na pilha. Sara o observava com paixão. Fazia duas semanas que começaram a namorar e esta era a primeira vez que dormiriam juntos fora de suas casas. A idéia do acampamento tinha sido de Lucival, o “líder” do grupo de jovens. Era sempre ele quem tinha as melhores idéias para retirá-los do marasmo e do tédio que era comum em Santa Maria. Afinal, a cidade era muito pequena, não possuía shoppings, nem cinemas, então existiam pouquíssimas alternativas de diversão para qualquer um. A principal alternativa eram os igarapés próximos ou a Praia do Remador, situada a 20 km de Santa Maria. Dois dias atrás, Lucival chegara na escola com a idéia do acampamento. Não teve dificuldades em convencer o grupo, e assim, todos estavam lá agora: Lucival, Antônio e Sara, os irmãos Théo e Teresa, Guilherme, Laura e Silvia. Os rapazes traziam a lenha conseguida na mata próxima, enquanto Sara ligava o rádio da pick-up e as demais conversavam animadamente, Tudo era perfeito naquele fim de tarde, e já havia uma espécie de “combinação” sobre quem ficaria com quem. Quatro barracas estavam armadas formando um quadrado em torno do ponto onde a fogueira seria acesa.

- Hoje a noite vai ser linda, Sara – diz Antônio sorrindo.
- Vai sim, amor – responde Sara.
- Menos papo e mais trabalho, ô... – brinca Lucival trazendo uma pilha de lenha.
- Acho que já temos o bastante pra hoje... – diz Théo, largando alguns tocos no monte.
- É... Também acho – concorda Lucival – Diz pro pessoal que já chega.

Guilherme chega e se une ao grupo.

- Ufa! Chega né? – pergunta caindo de joelhos no chão.
- Molenga... – diz Théo.

Uma música romântica começa a ser ouvida, sinal de que Sara encontrara os cds na pick-up.

- Agora, sim... – sorri Lucival, olhando Teresa.

Teresa, sentada na areia junto à Silvia, sorri de volta. A noite chega rápido, e Lucival acende a fogueira. Os jovens sentam-se em torno dela e bebem e conversam animadamente. Antônio e Sara se abraçam e se esquentam um no corpo do outro. - Quanto falta para as férias? – pergunta Lucival. - Um mês ainda, seu pateta – responde Théo. - Caracas, um mês? Tudo isso? – reclama Lucival virando uma lata de cerveja. - Eu que não tenho pressa... Sem as aulas é mais tempo sem ter nada o que fazer – diz Silvia. - Também acho – concorda Théo. - Acho que podemos aproveitar beeem melhor o tempo... – diz Teresa maliciosamente, em direção a Lucival. - Também acho, gata... Também acho... – Lucival se levanta e senta ao lado de Teresa, lhe passando a lata de cerveja. - E você, Laura? Ouvi falar que vai se mudar pra capital... – pergunta Guilherme, timidamente. - É... Vou, sim. Meu pai foi transferido pra lá. – responde Laura desanimada. Antônio e Sara se levantam e caminham até um tronco grande caído na praia. Ambos se sentam na areia com as costas no tronco e se abraçam. Seguem-se beijos apaixonados, entre um gole de vinho e outro. Ambos estão ansiosos com a expectativa desta noite. Depois de alguns minutos, o casal pode ver que Lucival e Teresa também se beijam, enquanto Théo enche o copo de Silvia de vinho e Guilherme, tímido como sempre, tentar conversar com Laura. - Vou pegar mais vinho, amor... – diz Antônio levantando-se. - Oba! – diz Sara. Antônio apanha o copo de Sara e levanta-se. A fogueira desenha seu contorno, enquanto ele caminha. Sara olha em volta, sentindo o vento frio. A mata próxima é fechada e escura e parece que nem a claridade das chamas consegue penetrá-la. Olhando além da fogueira e dos amigos, ela o vê. Ele está em pé, próximo à linha da mata, mais ou menos à trinta metros da fogueira. As chamas iluminam seu rosto magro e moreno, destacando seus olhos graúdos no corpo franzino de quinze anos. Ele veste uma camisa branca e surrada e uma bermuda cáqui. Parece descalço. - Jonas?!... – murmura Sara surpresa. Neste mesmo instante, Antônio também percebe a presença de Jonas. - O que você quer aqui? Ninguém te convidou! – grita Antônio, atraindo a atenção dos demais. - Olhem só... É o Jonas... O que você quer aqui, esquisitão? – grita Lucival se levantando. - Sai daqui, pivete... veio espionar a gente é? – grita Teresa. - Vamos botar esse “olheiro” pra correr... – diz Théo. - Tô nessa!– concorda Guilherme. Os rapazes começam a investir contra o intruso. Eles andam devagar, como se não quisessem espantar um animal selvagem. Ao contrário do esperado, Jonas permanece parado. - Metido a corajoso, é? – instiga Lucival. No inicio é um riso tímido, algo difícil até mesmo de se ouvir. Aos poucos torna-se uma gargalhada insana. O riso de Jonas ecoa pela praia. Sentindo um arrepio coletivo, os quatro rapazes param a menos de cinco passos do garoto. As garotas se levantam e reúnem-se próximas da fogueira, sentindo todo o frio da noite, como se a própria fogueira não estivesse acesa. - Vamos pegar ele... – grita Lucival, irritado pela risada debochada de Jonas. Os quatro investem ao mesmo tempo, mas de repente seus pés não os obedecem mais. Estão fixos na areia. - O que é isso? - E-eu... Não consigo... Andar... - Mas, que diacho... - Argh... Como num balé de marionetes mal-ensaiadas, os quatro voltam-se ao mesmo tempo para a esquerda, ficando de frente para a praia. Com movimentos desconexos, o grupo começa a caminhar arrastando os pés. - Isso é algum tipo de brincadeira? – grita Teresa. - Deixe de besteiras, Antônio... – diz Sara. - Pessoal, isso está me assustando... – murmura Laura. Os rapazes gritam e protestam, mas a marcha permanece inexorável. Alguns esmurram as próprias pernas como se quisessem tirá-las do torpor, mas é inútil. Os quatro continuam andando em direção ao mar. As garotas, assustadas, correm até eles e tentam puxá-los para trás, mas eles não se detêm. Sara e Laura agarram os braços de Antônio e ele grita por socorro, mas continua caminhando. Théo grita e chama pela mãe, enquanto seus pés tocam a água. Lucival berra e xinga, puxando as pernas com os próprios braços, mas nem isso o detém. Guilherme, mudo de medo, só contempla com pavor o que os espera. Em segundos, os quatro estão com a água pela cintura. Todos choram e berram. As garotas correm em volta deles num gesto de desespero. A risada de Jonas ecoa sobre todos. - Oh, meu Deus... - Pare com isso... PAREEEEE.... - JONAAAAAAASSSSS... O olhar de Jonas reflete as chamas da fogueira, enquanto seu sorriso preenche seu rosto. Os rapazes continuam sua caminhada e entram cada vez mais na água. Lucival é o primeiro a afundar, debatendo seus braços e tronco de maneira incontrolável. Guilherme é o segundo, e mergulha rezando. Théo afunda gritando em desespero. Teresa tenta puxar o irmão, mas não tem forças. As quatro garotas se agarram a Antônio, na esperança de que suas forças sejam suficientes para salvar pelo menos um amigo. Antônio cerra os dentes e tenta se agarrar às meninas também, mas seu esforço apenas retarda seus passos. Súbito, elas o soltam. Algo invisível as obriga a soltá-lo e todas gritam horrorizadas vendo os quatro rapazes agonizarem na água. Em minutos está acabado. Os quatro estão mortos. As meninas, novamente livres, correm para a praia. Atrás da fogueira podem perceber Jonas, que cessara aquela risada maligna. - O-o... Quê você... Fez? – pergunta Sara. - Você fez isso!! Você é um monstro!! – grita Silvia. - Saia daqui... Nos deixe em paz... – chora Laura. - Você matou meu irmããããoooo... – grita Teresa investindo de punhos cerrados contra Jonas. Antes que possa tocá-lo, Teresa tremula como uma imagem na água. Um ponto negro surge em sua barriga e dele, sai um redemoinho que atinge todo o seu corpo. Atônita, Teresa é sugada pelo redemoinho, desaparecendo na frente de todos. As garotas gritam horrorizadas. Jonas estende a mão e aponta para Laura e Silvia. Ambas se entreolham, quando o ponto negro surge em suas barrigas, sugando-as em menos de um segundo. Sara cai de joelhos no solo, completamente transtornada. Em sua mente, pensamentos caóticos se amontoam. Jonas aproxima-se e ajoelha-se em frente da garota. Sara levanta os olhos lentamente e pergunta: - P-por quê?? - Por que eu não gostava deles – sussurra Jonas. - V-vai... Me... Matar também? – soluça Sara. - Não. Eu gosto de você. – responde Jonas sorrindo. E Sara grita na praia. Clínica Nexo – uma semana depois. Fernando e Bruno caminham pelo corredor da clínica. Ambos trajam jalecos brancos e Bruno tem em mãos a pasta do paciente que será visitado nesta manhã. Desde seu ingresso na equipe, Fernando dedicara os últimos dias à consulta de vários livros e leituras especializadas sobre assuntos diversos como efeitos paranormais e todo tipo de acontecimento estranho. A experiência com Ruth Ximenes[1] na semana passada tinha deixado uma impressão muito forte em Fernando. Depois do tempo dedicado à pesquisa, Fernando pedira a Bruno para conhecer os demais pacientes. - A ficha desta paciente não tem seu nome completo... – diz Fernando. - Ah, isso... “Ana” é o único nome que lhe demos – diz Bruno. - Como assim “lhe demos”? - É o seguinte, Doutor... Ana foi encontrada numa reserva indígena. Ela era chamada de Yami, ou seja, “Noite” na linguagem deles. - O que a torna “especial” para estar aqui? – pergunta Fernando desconfiado. - Vai ver – diz Bruno sorrindo. Ambos chegam à porta do quarto 203. Bruno bate duas vezes levemente na porta. Uma voz suave responde com um “Entre” e então o médico usa seu cartão magnético e abre a porta. - Ela fica trancada? – pergunta Fernando mais desconfiado ainda. - Medida de segurança – responde Bruno. - Ela é perigosa? - Hahah... segurança para ela, doutor. O quarto está com a janela fechada, apesar do belo dia que se faz lá fora. Até mesmo as pesadas cortinas estão cerradas. Mobiliando o quarto, uma mesinha de centro redonda, com um vaso vazio em cima, duas confortáveis cadeiras estofadas, uma cômoda de três gavetas sem espelho, e no centro, uma cama de solteiro. Na cama, sentada com as pernas dobradas, uma mulher de pele branca e limpa, aparentando cerca de vinte e poucos anos, cabelos negros, lisos e sedosos, olhos negros e amendoados, com um sorriso simpático observa os dois homens. Fernando não pode deixar de notar que ela é absurdamente linda. Será que ele já não a viu no cinema? Em algum filme norte-americano, talvez. Ela parece uma atriz de cinema, com certeza. - Como vai, Ana? – pergunta Bruno. - Muito bem, Bruno. – responde ela abrindo um sorriso magnífico – Quem é o seu amigo? - Este é o Dr. Alvez. Ficará na equipe agora. – responde Bruno. - Muito prazer, Ana... – Fernando estende a mão para cumprimentar a mulher e é imediatamente correspondido. - Olá, doutor. Posso chamá-lo de Fernando? – pergunta Ana. - Claro que sim. – responde Fernando sorrindo de volta. - O Dr.Alvez está conhecendo todos por enquanto. Em breve, vocês terão oportunidade de conversar melhor. – diz Bruno – Vamos deixá-la descansar, ok? Temos sessão hoje às 16:00 horas. - Ah, sim... tudo bem. Voltem sempre, haha... – diz Ana. - Tchau, Ana. – diz Fernando. - Tchau. – responde Ana. Os dois doutores saem do quarto e Fernando diz: - Não entendi. Não vi nada de “especial”, diga-se, estranho, nela... - Não mesmo? Hehehe... - Ora... com certeza, não. - Nem sentiu nada? - Sentir o quê? - O que achou dela? Seja sincero. - Simpática, bonita, agradável... - Exato. A coisa é que todos, absolutamente todos, que a conhecem acham a mesma coisa. E invariavelmente sentem-se atraídos por ela. E quando digo atraídos é atraídos de maneira às vezes obsessiva. - Ora, mas ela é simpática realmente. - Sim, verdade. Mas detectamos em algumas sessões que Ana emite uma espécie de feromônio que atrai as pessoas. - Empatia? - Sim, sim. Isso. Alguns de nossos atendentes foram demitidos por se tornarem obcecados por ela. Trocamos o atendente do seu quarto pelo menos uma vez por mês, pois ninguém consegue se relacionar com ela por mais tempo sem ser acometido pela obsessão em tê-la para si. - Bem, empatia não é algo tão estranho assim. Existem várias pessoas que possuem esse dom... Não neste nível, mas possuem. - Certo, mas não notou nada mais de estranho? - Diga logo o que eu deixei passar agora. - O quarto fechado. Ela é supersensível à luz solar. Quando veio pra cá, ela foi exposta ao sol e teve queimaduras graves. - Não parece. - Pois é. Ela se recuperou em tempo recorde dos ferimentos e não ficou nenhuma marca ou cicatriz. Os medicamentos fizeram um efeito pelo menos 500% mais rápido do que eu jamais vi. - Realmente, ela é cheia de surpresas. - E outra coisa... Quem disse à ela que seu primeiro nome é Fernando? - Ora... não foi você? Ou eu mesmo? - Negativo, hehehe... - Ela deve ter lido no meu crachá, então. - Olhe direito, Fernando. Seu crachá tem apenas o seu sobrenome. Fernando levanta o crachá e constata que Bruno tem razão. No crachá existe apenas o sobrenome “Alvez”. - Ok. Você venceu. Vou ficar de olho aberto. Clínica Nexo – na tarde do mesmo dia. - Fernando? Posso falar com você? A frase, dita pelo diretor da clínica, Dr. Salomão, é apenas retórica, pois Fernando sabe que deve atendê-lo a qualquer minuto. - Claro, Dr. Salomão. Entre, por favor. – responde Fernando. Salomão entra e senta-se numa das poltronas da sala de Fernando. Uma sala de tamanho médio, com bastante espaço para os livros e arquivos de Fernando. Na mesa do psiquiatra, um notebook ligado à rede da clínica além de várias revistas e livros da área. - Serei breve. Precisamos de você em campo. – diz Salomão. - Em campo? Acha que estou pronto? - Sim, acho. E, além disso, nesta área não há como treinar antes. - Bem, isso me agradaria muito. Qual é o caso? - Não sabemos se é um caso, mas aconteceu uma coisa estranha em Santa Maria dos Aflitos. - Sei onde é. Já passei por lá algumas vezes vindo para a capital. - Quatro rapazes se suicidaram... Algumas pessoas estão desaparecidas... - Não seria o caso de chamar a polícia? - A polícia está no caso. Você vai trabalhar com eles. Acontece que os suicídios e os desaparecimentos ocorreram em situações estranhas. Acho que devemos dar uma olhada mais de perto. - Certo, então. - Parta hoje ainda. No máximo no fim da tarde. - Como quiser. - Quando chegar em Santa Maria, procure pelo delegado Palmeira. Fernando toma nota do nome do delegado num pedaço de papel. - E visite uma garota no hospital municipal... O nome dela é Sara Magalhães. - O que ela tem a ver com isso? - É o que você vai me dizer. Continua... [1] Em Nexo 01. - Agradecimentos mais que especiais ao Daniel pela contribuição neste capítulo. Valeu, Dan!

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