quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Nexo Capítulo 01: A Turbulência – Azul e vazio.

Por Alex Nery



Um mês atrás. Fernando, de pé, olhava através da vidraça. A chuva que cai lá fora bate diretamente no vidro da janela, embaçando a visão. Abaixo, no jardim em frente, enfermeiras correm para se abrigarem dentro do prédio, carregando pastas e algumas sacolas. O telefone toca às suas costas e a secretaria loura sentada à mesa atende.


- Alô?... Pois não, doutor Salomão. – diz a secretaria, desligando em seguida. Fernando se volta para a mulher. - Ele vai atendê-lo agora, doutor Alvez. Por aqui, por favor... – diz a secretária levantando-se e conduzindo Fernando até a porta do gabinete do doutor Salomão.

- Obrigado – responde Fernando sorrindo, sem deixar de notar que ela é bem atraente.


A secretária abre a porta do gabinete e deixa Fernando entrar. Dentro da sala, ele pode notar que ela é bem mobiliada, com uma estante cheia de livros preenchendo uma de suas paredes inteiramente. Ao fundo, uma mesa de mogno bem larga e uma cadeira grande e confortável. Mais à frente, um sofá e duas poltronas pesadas e confortáveis. No centro da sala, um homem magro e calvo, aparentando cinqüenta anos, usando um terno cinza e óculos quadrado, sorri e estende a mão.


- Bem vindo, Dr. Alvez... Sou o Dr. Salomão – diz o homem.

- Bom dia, doutor. – responde Fernando, cumprimentando o homem.

- O senhor foi muito bem recomendado. Sente-se. – diz o Dr. Salomão. O Dr. Salomão indica o sofá para o visitante, enquanto senta numa das poltronas.


A menção à recomendação de Fernando o aborrece. Patrícia havia convencido o pai a recomendar Fernando para uma vaga, e um pedido do governador ainda era uma ordem. Percebendo o semblante irritado de Fernando, o Dr. Salomão sorri e diz apaziguador:


- Analisei seu currículo e creio que o senhor está muito bem qualificado para a função. Já ouviu falar de nosso trabalho aqui?

- Na verdade ouvi bem pouco. Sei que muito do que é feito aqui tem um caráter sigiloso. – responde Fernando.

- Sim. Sigiloso é um termo apropriado. Aqui na Clínica Nexo desenvolvemos estudos em vários campos da ciência. E quando digo “vários”, quero dizer em várias direções... Inclusive em algumas áreas não-ortodoxas.

- Não-ortodoxas? Em que sentido?

- Bem, doutor... Devido ao seu currículo, a vaga de psiquiatra é sua indubitavelmente. Não vejo porquê não começar imediatamente a conhecer as nossas instalações. Vamos caminhar um pouco? - Claro. Os dois homens saem do gabinete do diretor e descem as escadas largas, feitas de madeira num estilo antigo, que liga o primeiro andar ao térreo. Assim como visto pelo lado de fora, o prédio principal da clínica mais parecia uma casa de fazenda, muito amplo e todo em estilo colonial. As portas e janelas eram largas e altas, e feitas, assim como as escadas, todas em madeira de lei, recordando uma época áurea da exploração madeireira na região. O estilo agradava Fernando, que apesar de gostar de tecnologia, sentia-se bem à vontade em climas antigos. Os dois médicos passam por algumas enfermeiras ocupadas em seus afazeres. Diferentemente de clínicas comuns, nada além do uniforme branco lembraria que ali funcionava uma instituição de saúde. Os pacientes eram mantidos no prédio ao lado, este sim de linhas mais modernas, mas ainda distante do que se espera ver numa clínica. Fernando nota que o prédio tem poucas janelas, situadas apenas do terceiro andar, o último da construção. Os dois homens saem do prédio da administração atravessando a porta principal. Os dois seguranças de plantão olham para eles casualmente. Fernando olha de volta e dos dois desviam o olhar. Ao chegar lá fora, ele percebe que a chuva parara repentinamente. Típico do mês de dezembro. - Somos uma clínica muito diferente de qualquer outra – diz o Dr. Salomão continuando a caminhar – Atendemos apenas alguns casos de cada vez. Nunca passamos de dez internos ao mesmo tempo. - Isso me espanta, pois a estrutura aqui me parece pronta para receber um número bem maior de pacientes. – retruca Fernando. - É verdade. – concorda Salomão – E isto, em parte, é o motivo por precisarmos de mais funcionários como você. - Como assim? - Estamos precisando expandir nossa atuação. A cada dia precisamos desenvolver mais rapidamente as nossas pesquisas. Digamos, que a demanda está crescendo. - Demanda pelo quê? Poderia ser mais específico, Dr. Salomão? - Vamos até a ala dos internos. Rapidamente os dois homens chegam ao prédio dos internos. Salomão avança até a guarita de segurança na portaria do prédio e usa um cartão magnético para se identificar. Um “bip” se faz ouvir, seguido por uma voz vinda do sistema de vigilância: - Bom dia, doutor. - Bom dia, Eduardo. Abra, por favor, e acrescente um passe de segurança para meu acompanhante, o Dr. Fernando Alvez. – solicita o diretor da clínica. - Claro, senhor. Um minuto, por favor. – responde a voz do outro lado do sistema. Quase imediatamente a porta é aberta, permitindo a entrada dos dois doutores. Ao entrar, Fernando vê à esquerda uma cabine de vidro com película negra e tem a certeza de que o segurança que liberou a entrada está lá dentro, o observando. O Dr. Salomão se aproxima de um terminal eletrônico e apanha um cartão magnético depositado na bandeja. - Use isto, por favor. Vai permitir que me acompanhe. – pede Salomão, entregando o cartão à Fernando. - Um crachá? - Mais ou menos. Na verdade é um cartão magnético com sensor gps. Sem ele, você seria barrado antes de dar dois passos aqui dentro. Com ele, o sistema o reconhecerá como visitante autorizado. È temporário, até que o seu cartão de acesso definitivo fique pronto após preenchermos os formulários de admissão. - Alta tecnologia... Sua clínica está me deixando muito curioso, doutor. - Mera ferramenta para que possamos trabalhar tranqüilamente. Vamos. Neste saguão do prédio, estranhamente não existem corredores. Apenas na parede ao fundo se podem ver as portas dos dois elevadores e a entrada das escadas. Não há mobília ou decoração. Apenas paredes lisas e assépticas. Um contraste brutal com o prédio da administração. Os dois homens chegam ao elevador. Salomão aperta o botão de chamada. Em segundos, eles entram no elevador e o diretor aperta o botão do primeiro andar. Ao chegar ao primeiro andar, os dois entram num corredor de aspecto mais tradicional ao de uma clinica. Um corredor longo e vazio, ladeado por várias portas. Salomão e Fernando caminham até a porta de uma sala onde se lê “Sala de Análise 01”. Usando o cartão magnético, Salomão abre a porta e entra com seu convidado. A sala é pequena e mal iluminada. Na parede oposta a porta, um homem negro, de aproximadamente quarenta anos, trajando um jaleco branco, está sentado em frente à um console de equipamentos. Ele olha para o diretor e o cumprimenta com um leve aceno de cabeça. O diretor acena de volta sorrindo. - Chegamos na hora, Bruno? – pergunta Salomão aproximando-se. - Sim, senhor. Estávamos lhe aguardando, na verdade. – responde o negro olhando para Fernando com curiosidade. - Este é o Dr. Fernando Alvez, nosso novo psiquiatra. Ele está começando hoje. – apresenta o diretor. - Como vai, Bruno? – Fernando estende a mão e cumprimenta Bruno. - Ótimo, doutor – responde Bruno amistosamente retribuindo o cumprimento. – Sente-se. Vai começar. - Começar o quê? – pergunta Fernando. Bruno volta-se para o console e fala ao microfone situado na mesa: - Ok, Carina. Estamos prontos. O Dr. Salomão já está aqui. Dito isto, a parede em frente ao console de equipamentos se ilumina, revelando tratar-se de uma vitrine e não uma parede. Do outro lado da vitrine, uma mulher morena de cabelos curtos, de olhar vivo e com aproximadamente vinte e cinco anos, usando o mesmo tipo de jaleco que Bruno, cumprimenta os homens com um gesto leve de cabeça. À sua frente, uma menina aparentando aproximadamente doze anos está deitada numa cadeira própria de dentistas. Ela tem os cabelos negros e longos e veste uma espécie de avental. Vários aparelhos estão ligados a ela por fios e eletrodos. Ela parece desacordada. Fernando supõe que ela esteja dopada, pois atrás da morena ele pode perceber uma mesa com seringas e ampolas. - Bem, vamos iniciar a gravação. São dez horas e doze minutos. Sessão conduzida pela doutora Carina Santos, auxiliada pelo doutor Bruno Vieira. A paciente desta sessão é Ruth Ximenes, caso NX04... Fernando fica cada vez mais curioso, mas não deixa de pensar que aquilo tudo é um pouco circense demais para um procedimento clínico. - Carina, houve uma oscilação. – informa Bruno. - Certo. Registre. – diz Carina observando a menina. A menina começa a agitar-se, como se estivesse tendo um pesadelo. Ela não fala nada coerente, apenas murmura coisas ininteligíveis que Fernando não compreende. De repente, um brilho azulado cobre o corpo da menina. - Bruno?.. – murmura Carina. - Estamos vendo também. – confirma Bruno. Fernando está sem palavras. Salomão apenas observa. Sem aviso de nenhuma espécie, o brilho se eleva sobre a menina. Aos poucos sua consistência amorfa vai mudando. - O que é isso? – pergunta Fernando. - Espere e veja – e só o que diz o Dr. Salomão. A forma azulada assume o contorno de um ser humano, pairando acima da menina. Um ser humano deitado paralelamente à menina agora inerte. Mas definitivamente não é a forma da menina. A forma movimenta-se no ar e desce entre a vitrine e a cadeira onde está a menina. Carina permanece estática. Fernando agora pode perceber. É a forma de um homem adulto. E a forma começa a falar. Inicialmente, sons espaçados... logo após, uma enxurrada de sons sem sentido. À medida que fala, o estranho contorno vivo parece mais irritado. Num momento, ergue seus braços e corre até a vitrine, mas é detido por uma força invisível e não consegue dar mais nenhum passo, caindo de joelhos no chão. Num gesto que expressa desespero, a sombra azul levanta a cabeça e urra para os céus, desaparecendo em seguida. Fernando observa estupefato. Nenhuma palavra sai de sua boca. Sala dos médicos – vinte minutos depois. Bruno apanha um café na cafeteira automática enquanto o Dr. Salomão e Fernando permanecem sentados à mesa no centro da sala. Carina ficara com Ruth na sala de sessões. Fernando ainda se sente desorientado quanto ao que viu. O diretor, percebendo isso, começa a falar. - Dr. Alvez, lembra-se quando eu disse que estudávamos áreas não-ortodoxas da ciência? - Sim, claro... mas, se isto não foi um truque ou uma espécie de teste de admissão, eu não imagino o que seja. – diz Fernando. - Entenda primeiramente que tudo o que você viu foi REAL. Não houve truque de espécie alguma. - Mas, então... o que é aquilo? - Aquele é o caso NX04. Ruth Ximenes. Ruth é uma menina de origem humilde que morava no interior do Estado. Um dia, sem qualquer explicação, durante seus períodos de sono, o “homem azul” começou a aparecer e a gritar pela sua casa. Os familiares dela evidentemente viram nisso um sinal de possessão demoníaca... Um fantasma diziam... - O que não é o caso... Ou é? A esta altura não sei mais em que acreditar. - Do ponto de vista científico tradicional, fantasmas não existem Dr. Alvez. - É claro... - Mas, do nosso ponto de vista, esta hipótese ainda está em aberto. - Em aberto? Quer dizer que realmente acha que aquela menina está possuída? - Sim e não. Simplesmente ainda não temos como afirmar ou negar isso. Ela chegou até nós no mês passado e por enquanto estamos coletando os dados. - Meu Deus... - Mantenha a mente aberta. - Quer dizer que existem outros casos iguais? - Na verdade, Ruth é um caso único. - Ah, sim. - Mas existem outros tipos de coisas “estranhas” que exigem a nossa atenção. - Que tipo de coisas “estranhas”? Salomão respira fundo antes de continuar. - Quando eu falei que a demanda pelos nossos serviços estava crescendo, eu não estava falando figurativamente. Vários casos excepcionais estão chegando ao nosso conhecimento, num ritmo antes considerado absurdo. Precisamos de pessoas em campo para averiguar esses casos e validá-los ou não. - Serei bem sincero, Dr. Salomão. Até agora tudo me parece fantasioso demais. - Ótimo. Eu teria uma péssima impressão de você se pensasse diferente. Precisamos dessa perspectiva também. Alguém ligado à ciência tradicional, alguém que nos questione e ponha à prova nossas pesquisas e conclusões. Aceita o emprego ou não? É uma oportunidade única, acredite. Fernando reflete. Seria loucura tudo aquilo? Uma encenação para afastá-lo do emprego e permitir que algum outro fosse chamado? - Eu aceito. Mas aviso-o de que será difícil que eu acredite nesse tipo de coisa. - Ótimo. Bem-vindo ao grupo. Bruno lhe familiarizará com tudo por aqui. – diz Salomão sorrindo, visivelmente contente com a decisão de Fernando - Outros deveres me chamam. O diretor levanta-se e sai pela porta. - Acredite, doutor... eu também fiquei quase louco quando comecei aqui – diz Bruno sentando-se. - Me chame de Fernando, ok? - Claro. - Bruno... o que significa NX04? - Quatro é o número do caso. Na verdade, temos cinco pacientes aqui neste momento. - Todos... “estranhos”? - Fernando, os estranhos aqui somos nós, heheh... - Eu não entendi nada do que aquela coisa azul murmurou. - Pudera... é egípcio. Fernando engole em seco. No próximo capítulo: Venha conhecer os demais pacientes da Clínica Nexo... se tiver coragem.

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